Meus Retalhos..."ENCONTROS E DESENCONTROS DAS LINGUAGENS SUBJETIVAS DOS CONTOS NARRATIVOS DE RUBEM BRAGA - “CONTO DE NATAL” E DE LIMA BARRETO - “MILAGRE DO NATAL”"
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ENCONTROS E DESENCONTROS DAS LINGUAGENS SUBJETIVAS DOS CONTOS NARRATIVOS DE RUBEM BRAGA - “CONTO DE NATAL” E DE LIMA BARRETO - “MILAGRE DO NATAL”
MEETINGS AND DISCONTINUES OF THE SUBJECTIVE LANGUAGES OF RUBEM BRAGA
NARRATIVE TALES - “CHRISTMAS TALE” AND LIMA BARRETO - “MIRACLE OF CHRISTMAS”
Este artigo em forma de ensaio, visa analisar de forma comparativa, crítica e de contraste, os contos dos dois renomados autores brasileiros: Rubem Braga e Lima Barreto, sendo eles, respectivamente, o “Conto de Natal” e o “Milagre de Natal”. Utilizando-se de ambas narrativas, buscou-se explicitar, além dos elementos comparativos, o quão subjetivas se mostram suas escritas, mesmo com elementos e fatores da realidade. Assim como, suas caracterizações em forma de estratégias que, expressam a ruborização de contos empreendidos no sentido de contar histórias em que, muito além de uma simples e divertida leitura, devido às escritas em tons sarcásticos ou de entretenimento; expressam gritos de denúncias implícitos, contra a sociedade da época em que foram escritos e, também, os próprios sentimentos dos autores e do mundo que os cercavam. Portanto, conhecer estas referidas obras, o tempo e a situação em que foram escritas além de saber um pouco do itinerário da vida dos autores, dá certo respaldo para tentar entender o que as entrelinhas de suas obras querem expressar.
Abstract
This essay article aims to analyze, in a comparative, critical and contrasting way, the tales of the two renowned Brazilian authors: Rubem Braga and Lima Barreto, being, respectively, the “Christmas tale” and the “Christmas miracle”. Using both narratives, we sought to make explicit, in addition to the comparative elements, how subjective his writings are, even with elements and factors of reality. As well as, its characterizations in the form of strategies that, express the flushing of tales undertaken in the sense of telling stories in which, far beyond a simple and fun reading, due to the writing in sarcastic or entertaining tones; they express cries of implicit denunciations, against the society of the time they were written and also, the very feelings of the authors and the world that surrounded them. Therefore, knowing these works, the time and the situation in which they were written, as well as knowing a little about the authors' life itinerary, gives some support to try to understand what the lines of their works want to express.
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Palavras-chave: Linguagem; Subjetividade; Narrativa; Denúncia.
Keywords: Language; Subjectivity; Narrative; Complaint.
É notório na história dos diversos escritores, os quais viveram em tempos aproximadamente do século XIX e XX no Brasil e no mundo, assim como os da atualidade, que de certa forma tentam expressar em suas obras, um pouco de si, de seus sentimentos, assim como do tempo em que viveram ou até mesmo, de situações específicas de suas experiências ou, que simplesmente presenciaram. Encontramos em suas escritas, fortes elementos de subjetividade assim como, paradoxalmente, uma realidade própria relatada. Destes inúmeros escritores, uns nem tão conhecidos, dentre eles, conforme cita Mendes, Torres e Sharpe (2017, p. 1-10), no Dossiê Escritores Esquecidos do Séc. XIX: Salvador de Mendonça (1841-1913); Félix Xavier da Cunha (1833-1865); Carlos Ferreira (1844-1913); assim como os mais conhecidos, citados no Perfil do Acadêmico da Academia Brasileira de Letras: Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882); Machado de Assis (1839-1908) e Aluísio Azevedo (1857-1913).
O fato é que
se pesquisarmos a vida destes vários autores, podemos perceber traços de suas
obras em suas histórias, ou, até mesmo das situações temporais, com formatos
criativos ou simplesmente de relatos; além de serem em sua grande parte,
narrativas subjetivas com elementos da realidade, em que as almas dos autores parecem
gritar nas linhas de suas obras. Caso concreto disso, é o conto de Lima Barreto
aqui analisado, no qual é interessante anotar que, quando escreveu o “Milagre
do Natal” em 1921, segundo Belchior (2011, p.95), estava vivendo algumas
tensões em suas experiências, como por exemplo, uma repulsa contra as classes
suburbanas, tratando-os ironicamente como magnatas.
Além disso, ao se sentir intelectualmente superior aos “doutores da
secretaria”, desprezava-os, embora ele mesmo não tenha obtido o título. Uma de
suas queixas também, era quanto aos “olhares oblíquos de pudicas senhoras e
engomados funcionários públicos na estação de trem” (BELCHIOR, 2011, p.95). É notório, portanto, que Lima Barreto
ao se ver inserido neste contexto de uma tensão social, em que existia uma
classe dominante local e que estava vivendo a experiência de morador dos
subúrbios, além de todas as discriminações que vivia; o quanto todo este
cenário motivou e influenciou sua escrita, incluindo este conto aqui
trabalhado, em que relata através de uma ficção, algo que o rodeava em seu
cotidiano.
Neste texto, além de fazer uma breve análise comparativa, tentou-se interpretar de forma não esgotante, o que os ilustres autores Rubem Braga e Lima Barreto expressam nas entrelinhas de suas narrativas: “Conto de Natal” e “Milagre do Natal”, respectivamente. Ainda que em meio ao certo humor, sarcasmos e tensões expressos nas linhas dos referidos contos, são expostas situações vistas como realidades de alguns cotidianos vividos na época em que escreveram. Isto quer dizer que, a análise ou estudo comparado que é feito neste presente trabalho, não tem como único objetivo, os elementos que se confrontam; mas expõe também, diferenças e semelhanças existentes. Visto que, ambos os autores se utilizam do fator tempo do Natal para discorrerem os referidos contos, porém em vias de situações elementares específicas.
Portanto, a escolha pelo estudo comparado destes, se deu como a metodologia mais adequada ao objetivo de uma análise não meramente comparativa, mas para o estabelecimento de certa forma a confrontar, contrastar uma obra com a outra. Assim como descreve Pianheri (s.d., p.2), a qual afirma que o estudo comparado, é uma fonte de esclarecimento ou de informação, para que se fundamentem juízos de valor. E um outro elemento analisado em ambas as obras, foi a possibilidade da descoberta de outra intenção mais subjetiva, ou mais oculta, como bem explana Carvalhal (2006, p.75), ao dizer que de forma implícita a esses procedimentos, está a demarcação da dependência cultural; o que de fato, podemos encontrar enraizados no decorrer de ambos os contos. E por fim, podemos encaixar, dentro das dez linhas de pesquisa da chamada tendência da “Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH da USP” da linha “Literatura de Sociedade”, em que há este sistema de comunicação literária, entroncando-se de forma mais central e direta, na tradição da crítica literária brasileira. Voltando-se ainda, para as origens dos problemas que decorrem da inserção do texto em um contexto particular, para que obras possam se relacionar entre si e com o leitor, além das próprias situações da “forja estética acerca de seus vínculos complexos com o processo histórico-social”. (NITRINI, 1994, s.p.) E além disso, de uma situação temporal timidamente exposta, que é a data do “Natal do Senhor Jesus”.
O
“Conto de Natal” – Rubem Braga
Em o “Conto
de Natal”, os valores retratados por Rubem Braga, além de mostrar a realidade
fatídica e difícil de uma família recém-desempregada, aparentemente do sítio de Seu Anacleto (pai, mãe gestante
de 8 ou 9 meses e um filho de 6 anos), habitantes da zona rural, carregada de
uma linguagem típica de sua região e que está em busca de melhores condições
para a criação dos filhos e de sua dignidade. Apresenta também a realidade de
uma família, que mesmo não tendo citados os seus nomes, a não ser do pai, Faustino
(parecendo ser intencional, para demonstrar talvez que não tinham uma
identidade conhecida e/ou reconhecida numa sociedade que não dava valor aos
mais necessitados. Citando ao contrário, os nomes dos que se tornam mais
notáveis por terem maiores condições), permanece unida mesmo em meio às
dificuldades. Exemplo disso, quando percorrem caminhos esgotantes, andam
debaixo de um sol escaldante e por lugares tortuosos como por exemplo,
atravessar uma cerca de arame farpado com o fator inclusive, da mãe da família
estar à beira de dar à luz.
Família esta
que, ao descobrir que era a noite de Natal e que seu bebê tinha nascido em uma
estrebaria, assim como Jesus Cristo; tiveram um breve momento de descanso na
alma, o que lhes causa uma alegria aparentemente passageira. Principalmente ao
pai, que há algum tempo não tinha este tipo de sentimento. Porém, se deparam
com a trágica morte do pequeno bebê; que talvez pelas condições precárias das
quais vinham, a falta de uma alimentação adequada e de cuidados, foram pegos de
surpresa com esse triste acontecimento, em meio a um dia que deveria ser de
alegrias, tanto com a chegada de mais um filho, quanto com o fato de seu nascimento
ter sido no dia em que Jesus nasceu, ou seja, na festa do Natal.
Um outro aspecto interessante de uma analogia
que Rubem Braga trata, é que a família daquele casal, recebeu presentes (broas
velhas e uma lata de café) por caridade, do Carreiro que lhes dera carona, em
meio à chuva que começou a cair no caminho e que os alojou numa estrebaria. Uma
vez que assim como para o menino Jesus: nenhuma porta foi aberta à família para
que o bebê nascesse e tivessem o apoio adequado. Vale ainda ressaltar que,
quanto aos supostos presentes recebidos, percebe-se que naquele momento,
representavam a miséria que os circundavam. Diferenciando um pouco do Menino
Jesus, que recebeu os presentes dos reis magos, porém por ser Rei, recebeu
grandes presentes como ouro, mirra e incenso, apesar das mesmas condições de
nascimento.
Quando o autor escreve que O menino Jesus Cristo estava morto para
encerrar o conto, percebe-se um tom que nascia na vida deles de desesperança,
frente aos trágicos acontecimentos que assolaram suas histórias. Percebe-se
também, o foco em uma analogia com um tom um pouco paradoxal ao nascimento do
Menino Jesus. Até o fato de ter ocorrido o parto em uma estrebaria, em meio aos
animais, que neste caso, seriam a vaca e o burro; porém com uma criança que não
sobrevive. No entanto, a partir daquele momento podemos inferir que, este bebê
habitaria o Céu; o Céu do Senhor Jesus Cristo, que nem todos terão condições de
entrar e muito menos, habitar.
Deixa,
portanto, traços por vezes de humor, como por exemplo quando o pai da família
ri muito “mostrando os dentes pretos de fumo: - Eh, mulher, então vâmo botar o nome de Jesus Cristo! ”
(BRAGA, 1964, p.39); além de pensamentos e, inclusive de realidades sobre a
vida cotidiana. Por outras vezes, retira o colorido, em que o pai da família, é
lembrado pelo resmungar do Carreiro de que era Natal, de um momento dentro do
aspecto sem cores de suas vidas. Porém, o texto é de uma escrita bem singela e
a estética bem contemporânea, inclusive pelo momento em que ele escreve, já em
meados do século XX.
Neste conto
é exposto então, valores que perduram até os dias atuais, como uma forma de
manifestação, de protestos que podemos subentender do autor, que quer retratar
uma realidade corriqueira que a humanidade carrega já há tantos milhares de
anos. Portanto, apesar de se referir a uma família específica que vivia no
campo, pode-se inferir, que acontece também em grandes centros urbanos, nas
várias partes do mundo e no decorrer dos tempos até a atualidade. Podemos
encontrar várias histórias de famílias nas mesmas condições de uma espécie de
indigência; muitos meninos que pelas estruturas em que se encontram e por tudo
o que passam, têm suas vestes rasgadas e tantas vezes não respostas; mães dando
à luz, criando, perdendo seus filhos em condições tantas vezes precárias; pais
lutando para colocar o pão de cada dia em seus lares, assim como pelo menos o
básico para se viver. Mas, mesmo diante deste cenário, percebemos pessoas que
permanecem unidas às suas famílias, lutando por melhorias juntos; além de, no
meio de tantas portas que se fecham e/ou não se abrem, existem pessoas
solidárias que dão apoio no tempo certo aos mais necessitados, muitas vezes
tirando do pouco que têm.
O
“Milagre do Natal” – Lima Barreto
Por outro
lado, o conto de Lima Barreto, o “Milagre do Natal”, difere-se em boa parte do
“Conto de Natal” de Rubem Braga, pois que retrata uma família tradicional da
época, ondem existiam interesses, preconceitos e disputas por poder, de forma
muito explícita e exacerbada. Inclusive quando ao final da história, o
personagem Simplício que acaba por ser o escolhido para desposar Mariazinha,
acredita que quem os casou, foi o Senhor Jesus Cristo. Ao contrário do que a
própria Mariazinha acredita, que foi a promoção no cargo público que Simplício
alcançou. Retrata também algumas más inclinações humanas, como a mentira, a
avareza, a soberba, em que Lima Barreto bem descreve, pois, que parecem
incomodá-lo bastante.
Aconteceu
que, no jogo de interesses que precedia o Natal, Guaicuru ou o Bacharel de Goiás, outro pretendente de
Mariazinha; para que pudesse impressionar a família desta, apresenta
retoricamente o projeto de um livro ousado, acerca entroncamento do Direito
Administrativo brasileiro no Direito Administrativo português antigo, que dizia
ser seu este trabalho. Uma obra que na realidade, pertencia a uma outra pessoa;
além de um diploma sem validade nenhuma e uma vida totalmente falsa. Isto, para
ganhar uma promoção no trabalho e, ainda a mão da moça. Mas que por fim, seu
plano é descoberto e desmorona; por que eis que quem ganhou tanto a promoção,
quanto a esposa, foi Simplício. Este, que geralmente conseguia avançar por
méritos próprios.
A respeito
de Seu Simplício, percebemos um
personagem mais apático, talvez mais tímido, sem muitos atrativos aparentes, a
não ser seu cargo de confiança subordinado ao senhor Campossolo; menos visado
pelos interesses gritantes de Dona Sebastiana para que pudesse desposar sua
filha, ao contrário da atenção dada ao doutor
Guaicuru, que por seu suposto, porém corrupto currículo. O personagem
Simplício, aparenta ser tão simples em suas ações e pensamentos, assim como o
próprio nome.
Neste mesmo
conto podemos perceber que Lima Barreto, ao fazer essa espécie de denúncia
sobre a sociedade de sua época, que era movida por interesses, relata por
exemplo, os casamentos dos filhos das famílias que eram arranjados, com pessoas
da mesma classe social. Podemos assim, verificar o quão bem retratados são os
valores de seu tempo, um traço forte daquele século, tanto no Brasil como em
outras partes do mundo. Com relação ao Brasil, eram notoriamente fortes as
influências europeias e suas tradições que estavam bem enraizadas, conforme
Silva (2014, p.55) bem descreve:
A
perpetuação do modelo colonial pode ser observada nas falas do “bacharel de
Goiás” no conto Milagre de Natal (BARRETO, [200-a]), no qual há uma clara
crítica à repetição dos modelos coloniais pela classe dominante. Isto é
ilustrado quando o dito bacharel, com a intenção de impressionar os demais
participantes do jantar em que está, declara que vai “entroncar o nosso Direito
administrativo no antigo Direito administrativo português” (BARRETO, [200-a]).
Esta fala, além de ser uma crítica às leis e à organização do sistema político
baseado em modelos pré-estabelecidos, pode ser vista como uma referência
indireta à literatura estrangeira, tida como padrão de qualidade artística.
Algumas
diferenças e analogias entre o “Conto de Natal” e o “Milagre do Natal”
Uma das
diferenças que se encontra nos dois textos é o fato de que o “Conto de Natal”,
supõe um fim trágico com a morte do nascituro e também da esperança; e em o
“Milagre do Natal” a suposição é contrária, quando termina com um resultado
aparentemente positivo de um casamento e de uma promoção de emprego e com os
felizardos cheios de esperança, mesmo diante do jogo de interesses.
Quanto ao
estilo que ambos escrevem seus contos, em que Rubem Braga o compõe em meados do
século XX e Lima Barreto ainda no início do mesmo século, perpassam pelo
cenário literário, nacionalista e artístico onde aconteceu uma ruptura com o
subjetivismo do eu-lírico do Romantismo assumindo as características sem a
carga emocional deste, contendo pelo contrário, estruturas narrativas mais
objetivas e descritivas. Paradoxalmente, porém, com um traço importante do
Simbolismo que é o de entrar na alma das coisas, dos anseios, das situações,
daquilo que quer ser expresso da própria realidade existente; além disso,
expõem uma linguagem por vezes ambígua, o que é típico das narrações
subjetivas.
A
ambientação descrita em “Conto de Natal”, recebe de Rubem Braga, um tratamento
um pouco menos detalhado, apesar de deixar claro à leitura, o entendimento e a
visualização do cenário em que o conto se passa. Ele se atém mais aos pequenos
detalhes práticos como dizer que a família precisava passar por uma cerca de
arame farpado; a mulher grávida de oito ou nove meses, que cai sentada em um
torrão de cupim; e até mesmo, o carreiro apontar a estrebaria para que eles lá
ficassem. A Linguagem utilizada é a mais informal, típica da região e do estilo
em que habitavam, demonstrando ainda melhor, o familiarizar do ambiente ao
leitor; e ao que talvez Rubem Braga desejasse expor.
Já na
ambientação descrita em o “Milagre do Natal”, recebe por sua vez de Lima
Barreto, um tratamento bem detalhista, onde introduz o leitor no cenário em um
tom mais melancólico que se passa descrito no bairro do Andaraí, no Estado do
Rio de Janeiro. Diferencia-o de outros demais bairros os quais são considerados
por ele, como lugares mais alcançados por uma alegria mais efêmera do que
constante. Além do mais, descreve de forma breve, porém com detalhes
importantes e bem convenientes, os personagens que compõem o conto, sendo eles:
o senhor Feliciano Campossolo Nunes (o pai da família e subdiretor do Tesouro
Nacional); sua esposa Dona Sebastiana (nome pelo qual foi batizada a vila em residiam:
Vila Sebastiana); sua filha única e
solteira Mariazinha; a preta Inácia (dela, só se sabe que saiu de Salvador
com esta família, para morar no Rio de Janeiro e auxiliar Dona Sebastiana no
preparo da comida); e os pretendentes a casar-se com Mariazinha: Fortunato
Guaicuru e Simplício Fontes (também funcionários públicos de cargos altos, na
mesma seção do senhor Campossolo). E por fim, a narração vem com a Linguagem
carregada de mais formalidade, tipicamente a utilizada na época, com traços
vivos da linguagem mais perto da que foi introduzida no Brasil pelos
portugueses.
Quanto aos
valores semelhantes entre os dois contos, averiguou-se o fato de que a classe
social baixa, não consegue inserir bem as pessoas em contextos de uma evolução
e desenvolvimento, mas de exclusão. No entanto, de um ponto de vista mais
esperançoso e possível, pode-se acreditar que, mesmo diante das circunstâncias
difíceis, a família do “Conto de Natal” de Rubem Braga, por exemplo, poderia
não permanecer naquela situação de desesperança e, após seu tempo de luto,
lutarem por melhores condições, economizarem aos poucos, e terem enfim, uma
esperança renascida. Mas, não parece ser o que ficou subentendido, e sim, o
contrário, inclusive o fato da mãe do bebê natimorto, ter virado a cabeça e
fechado os seus olhos, fazendo esta alusão de forma mais clara.
Assim, como foi o caso verídico do escritor
Lima Barreto e de seus pais, que tiveram uma boa oportunidade, mesmo sofrendo
preconceitos em certos meios sociais. Interessante e um pouco contraditório,
pois mesmo diante das enfermidades geradas pelo vício e da falta de esperança
diante da sua história, Lima Barreto não cessava de lutar através de suas
escritas.
Outro
aspecto semelhante, foi que estava enraizada em dois dos personagens (em “Conto
de Natal”, a do pai da família e em “Milagre do Natal”, do Simplício), a fé em Jesus Cristo, em que ambos acreditam que
aquele momento em que viveram, era fruto da graça Dele. Um valor religioso que
perdura no tempo em boa parte da humanidade, e que é sempre provado frente às
adversidades.
Além do
mais, são dois escritores que seguem uma linha semelhante de escrita, onde seus
textos por ora são narrativos em 3ª pessoa, com aproximação ou não do narrador,
assim como, também são textos em sua maioria descritivos de ambientes e de
personagens em que o leitor consegue se ambientar no cenário, de forma clara.
Breve
síntese das vidas e das obras de Rubem Braga e Lima Barreto
Os contos de
Rubem Braga, são contos da Modernidade em forma narrativa-descritiva,
inclusive, conforme Oliveira (2017, s.p.) já no RESUMO de sua tese, transcreve
a importância literária das crônicas de Rubem Braga, que foram considerados
contos, e que “Antônio Cândido definiu o cronista como ‘o mais poeta dos
prosadores do modernismo”. A sua carreira literária, conforme cita Frazão
(2019, s.p.), iniciou cedo, quando aos seus 16 anos em 1929 já escreveu as
primeiras crônicas que foram publicadas no Jornal Correio do Sul. Ingressou na
Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, concluindo em Belo Horizonte no ano de
1932; ano este, em que deu início à sua carreira de jornalista, cobrindo a
Revolução Constitucionalista de 32. Durante esta carreira de jornalista, no ano
de 1936, lança seu primeiro livro de crônicas: “O Conde e o Passarinho”.
Já era
casado aos 26 anos, e ao se mudar para Porto Alegre, no tempo da Ditadura de
Vargas onde o mundo se preparava para entrar em Guerra, foi preso, devido às
crônicas que escreveu acerca do Regime; porém logo foi solto por intervenção do
dono do Correio do Povo e da Folha da Tarde. Neste tempo em que esteve em Porto
Alegre, escreveu 91 crônicas para este último. Dentre as lutas políticas
escritas nas crônicas de Rubem Braga, Oliveira (2017, s.p.), ainda relata sobre
sua ida para a Itália na Segunda Guerra Mundial, para cobrir como jornalista
todas as atividades da Força Expedicionária Brasileira; além de outras tantas
atividades profissionais na área literária em que se empenhou.
Percebe-se
que desde os primeiros anos de suas escritas como cronista, manteve um padrão
bem semelhante aos demais textos. Com uma perceptível maturidade desde cedo,
era bem decidido naquilo que queria escrever e defendia seu ponto de vista,
tentando passar uma mensagem, muitas vezes de denúncia, através de histórias
fictícias com elementos da realidade; além de inserir humor para deixar o
leitor com um melhor entendimento, além da simplicidade e leveza na leitura.
Para verificar isto, basta fazer essa comparação entre o “Conto de Natal”,
esmiuçado aqui neste trabalho e seu primeiro livro de crônicas, já citado: “O
Conde e o Passarinho”.
Sobre os
contos de Lima Barreto, assim como seus romances, suas crônicas e suas sátiras,
são escritos alguns anos antes; porém adentrando também no mesmo século, no
período Pré-Modernista, alcançando o Modernista. Assim como relatam as
informações obtidas na resenha de Scheffel (2018, p.334), em que afirma que se
trata de um autor que é cânone das letras brasileiras e que na maioria de suas
obras, que são lidas por várias gerações de leitores, assim como por críticos e
por admiradores, ainda afirma que Lima Barreto é identificado através de seus
escritos, por um viés “de crítica social, de denúncia aos preconceitos e de
desapontamento com os primeiros anos de nossa república” (SCHEFFEL, 2018,
p.334).
Segundo as
fontes de (SOUSA, s.d.; SCHEFFEL 2018; ZILLY, 2006; ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL,
2021); Lima Barreto, iniciou sua vida profissional, aprendendo o seu ofício
quando trabalhou no Instituto Artístico,
onde era impresso o periódico A Semana
Ilustrada. Em seguida, na Imprensa
Oficial e publicou a tradução de o Manual
do Aprendiz Compositor, de Jules Claye. Em 1907, suas primeiras
contribuições foram feitas, mas não por muito tempo, por se sentir
desvalorizado, em uma revista de uma circulação grande Fon-Fon, a pedido de Mário Pederneiras, que era poeta e jornalista.
E fundou logo após, a revista Floreal, contribuindo também para as revistas A.B.C. e Careta. No ano de 1911, publicou no Jornal do Commércio, o romance O
triste fim de Policarpo Quaresma, logo após, fazendo a publicação em livro,
no ano de 1915. Dentro do período das publicações desta obra, em 1914, devido
às crises de depressão e de alcoolismo, foi internado no hospício e mesmo
assim, em seguida, no ano de 1916, contribuiu com a revista A.B.C. com textos de cunho socialista e,
em 1918 foi aposentado devido aos seus problemas de saúde, gerados pelo
alcoolismo. Porém em 1919, publicou o romance: Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, publicado pela editora de
Monteiro Lobato, Revista do Brasil. Em
1921, ano em que escreveu o Milagre do
Natal, trechos do romance inacabado Cemitério
dos Vivos e de vários diários, mesmo diante de suas internações, foram
publicados no mesmo ano em que tentaria sua terceira candidatura na Academia
Brasileira de Letras, mas desistiu antes mesmo das eleições.
No geral,
percebe-se que as obras de Lima Barreto, englobam suas denúncias acerca de
discriminações, de interesses de uma elite dominante que despreza as classes
sociais mais baixas, com traços de sua realidade e da realidade de seu tempo,
além do nacionalismo e de desejos e sonhos de uma mudança nos modos de viver;
desde os contos até os romances. Por exemplo, além do conto aqui trabalhado o
“Milagre do Natal” que contém parte dessas características que englobam tanto
expressamente como de forma subjetiva, temos também o conto Manel Capineiro que expressa
principalmente uma denúncia das diferenças entre as classes sociais e o
preconceito.
Considerações
finais
Diante do
exposto, percebe-se que parte das características comuns, não somente destes
dois autores, assim como de outros que viveram em meados dos mesmos séculos, é
o foco de denúncias em suas narrativas, na maior parte de forma subjetiva,
acerca da sociedade e do tempo em que viviam, principalmente no que diz
respeito aos atos discriminatórios de uma elite dominante contra uma classe que
era supostamente subjugada. Como no caso de Lima Barreto, que viveu na
realidade de sua existência e, apesar de ser um gênio da literatura, porém, tão
sofrido nas lutas de seus dias, entregou-se ao vício do alcoolismo e viveu uma
crise de depressão, devido principalmente ao fato dos muitos momentos
discriminatórios vividos. Rubem Braga, por sua vez, mesmo não experienciando
processos discriminatórios como Lima Barreto, lutava ferrenhamente, através de
suas escritas e sua profissão de jornalista, contra o sistema autoritário da
época, que o manteve por um tempo como presidiário, devido às polêmicas
crônicas as quais escreveu.
No entanto,
foram dois homens que desde sua juventude, assumiram a profissão de escritores
e foram insistentes no cumprimento de seus objetivos, inclusive na vivência
literária dos períodos pré-modernos e modernos, e que hoje, são reconhecidos
por suas vidas e obras consagradas na literatura brasileira.
Podemos
também inferir de forma subjetiva em ambas as narrativas, que o tempo do Natal,
carrega uma carga emocional bem enraizada e propícia para eventos importantes.
É como se, ao se aproveitarem do tema, os autores inserissem e expusessem seus
anseios e denúncias de forma a chamar uma atenção mais plena aos textos pois,
que os leitores se encontram envolvidos pela mística do tempo e talvez mais
sensíveis para entender o que se esconde nas linhas descritas.
Interessante
notar também, que assim como diz MANCEBO (2002, s.p.) em seu artigo que fala
sobre a produção dessas subjetividades no percurso histórico do período da
Modernidade, aponta estes elementos constitutivos dos fundamentos do homem a
partir daquele século:
Em outros termos, um dos universais da modernidade ocidental
é a suposição dominante de que o homem, na sua constituição mais íntima, é o
centro e o fundamento do mundo. Ao longo dos tempos, construiu-se a expectativa
de cultivo e respeito à interioridade, através da proteção da privacidade e
instituiu-se uma nítida separação entre as esferas públicas e privadas da vida.
No entanto, esse processo de constituição da subjetividade moderna foi longo e
continua sofrendo modificações intensas até a atualidade. (MANCEBO, 2002, s.p.)
Percebe-se,
portanto, que nestes contos, assim como em muitas das demais obras dos
referidos autores, que existe o viés do estabelecimento de forma subjetiva de apelos
sociais, frente às normas vigentes. E que suas narrativas em forma de histórias
em tons de certa indignação implícita, e ao mesmo tempo de entretenimento,
englobam o sentido que desejam produzir de mundo e de si mesmos. Assim como
também se nota, que o sentido situacional e temporal por eles percebidos, e que
contam em suas narrativas, aflora de uma performance que tenta expressar o
grito que está dentro de suas almas e, portanto, utilizando de seus dons da
escrita das letras, narram a mensagem que desejam que seja conhecida e as quais
perduram e permanecem no tempo.
ACADEMIA
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Perfil Acadêmico. Disponível em: <https://www.academia.org.br/academicos/aluisio-azevedo>.
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Macedo. Perfil do Acadêmico. Disponível em: <https://www.academia.org.br/academicos/joaquim-manuel-de-macedo>. Acesso em: 25 jan. 2021.
ACADEMIA
BRASILEIRA DE LETRAS. Machado de Assis.
Perfil do Acadêmico – Academia Brasileira de Letras. Disponível em: <https://www.academia.org.br/academicos/machado-de-assis#:~:text=Machado%20de%20Assis%20(Joaquim%20Maria,da%20Academia%20Brasileira%20de%20Letras> . Acesso em: 25 jan. 2021.
BARRETO,
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17. ed. 120p. São Paulo: Ática, [s.d.]. (Bom Livro). Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000159.pdf>. Acesso em: 07 jan. 2021.
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