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| Fonte da Imagem: Arquivo Pessoal |
Muitas obras são consideradas de difícil leitura por muitos leitores, e de fato, muitas realmente são. Porém, ao que me parece, a maior parte delas, precisam de uma certa sensibilidade que nem todas as pessoas possuem e/ou desenvolvem. Talvez a falta de tempo para ler com qualidade; ou a falta de interesse; dentre muitos outros aspectos, que podem atrapalhar o entendimento dessas ditas obras.
Confesso que, a primeira vez que o li, também encontrei diversas dificuldades, inclusive a de não entender muito bem quais as mensagens que eu poderia/gostaria/conseguiria captar. Foi uma leitura fracassada que queria apenas alcançar metas incoerentes com a verdadeira leitura. Na segunda leitura, agora com um novo olhar, mais penetrante, que alcança o meu ser; como uma apreciadora das obras de G. K. Chesterton, estou conseguindo mergulhar um pouco mais e chegar a novas conclusões...
A Sociedade Chesterton Brasil, juntamente com o Instituto Cultural Hugo de São Vítor e seu excelente tradutor: Raul Martins Lima, nos apresentam com maestria, esta obra do fabuloso Chesterton: O Poeta e os Lunáticos. A tradução segue ao máximo, a ideia do original, segundo o próprio tradutor, no Prefácio da Tradução (p.13-19). Um presente de muito bom gosto, o qual ganhamos da prima do meu esposo.
São contos de diversos contextos, onde o poeta e pintor Gabriel Gale se encontra presente, ajudando de uma forma "diferente", a solucionar casos de crimes que envolvem certos mistérios, que para os outros, são difíceis de solucionar. Porém, para ele que mergulha nos fatos, não ficando na superfície; encontra nos detalhes, não percebidos pelos outros e que vão além de suposições, a verdade que sempre surpreende a todos.
Fonte de grandes riquezas de pensamentos, de filosofia, que podem gerar muitos outros livros e conhecimentos inspirados nos ensinamentos escondidos nas entrelinhas desta obra; escolhi um dos contos para humildemente tentar resenhar, colocando minhas impressões e entendimentos. Assim como, deixar o desejo de leitura para que alguns também possam ser submersos neste mundo do Chesterton e nos gritos de sua alma, ao que me parece.
O conto escolhido aleatoriamente foi o Capítulo III, nas páginas 75-102, o qual tem por título: "A Sombra do Tubarão".
"Veja, é preciso um homem não prático para se descobrir coisas assim." (CHESTERTON, 2017, p. 102)
Sim, nesta última fala do personagem Gabriel Gale no citado conto do Capítulo III, Chesterton, ao que me parece, elucida na realidade, um caminho que além de fazer Gale percorrer em todos os contos, se abre como uma seta para que em nosso cotidiano percorramos de forma eficaz, aos caminhos corretos de resolução de problemas, de escolhas a serem feitas, de decisões a serem tomadas, enfim. Nesta perspectiva, parece mostrar que na maioria das vezes, é necessário mergulhar nos densos mares para que a verdade seja revelada. Sim, por que existe verdade e mentira; certo e errado! É como se, de forma bem direta, ao agirmos por impulsos, ações não pensadas, não analisadas, estaremos fadados geralmente ao fracasso, aos falsos julgamentos, às decisões que custam caro às nossas vidas.
Escolhi iniciar o breve estudo deste capítulo, visando expor a ideia geral percebida: aprofundar-se nas coisas, requer muito mais do que fatos expostos a olho nú; requer reflexão, ou seja, adentrarmos no contexto e visualizar o além. É a Metafísica já apresentada por Aristóteles, confirmada por Santo Tomás de Aquino...
Chesterton (Ibid., p.75), inicia com maestria, fazendo nota aos dois "impossíveis" que se tornam possíveis nas mãos do grande e conhecido investigador: Sr. Sherlock Holmes. Ora, uma boa forma de introduzir o capítulo que gira entorno da busca da resolução investigativa de um crime tão misterioso quanto curioso, inclusive em seu desfecho.
Descreveu tudo com riqueza de detalhes, quando se referia aos contextos em que Gale (poeta e protagonista dos contos) era inserido, assim como, fez questão de ressaltar as características marcantes dos personagens. Me parece que, tentou fazer com que nos inseríssemos na investigação do crime cometido contra o Sir Owen Cram, um rico, excêntrico um sábio senhor das artes, que foi encontrado esfaqueado, jazendo em uma faixa de areia à beira-mar, sem marcas de outras pegadas que não as dele; por alguns de seus jovens companheiros do grupo de estudantes ao qual ele arbitrava debates, e os quais se encontrava sempre para as diversas discussões. É interessante notar que, quando Chesterton trata dos assuntos mais objetivos, é como se ele quisesse passar rápido, por que a superficialidade, parece não agradá-lo muito, muito menos a Gale.
Nos expõe sempre nas opiniões mais objetivas dos cientistas, assim como as mais subjetivas (não deixando o contato pleno com a realidade e com a justa racionalidade), como as do poeta; levando em consideração a utilidade de todos os argumentos. Seja para que se sigam tais caminho ou não. O fato é que "incontáveis teorias foram sugeridas, indo, como já dissemos, desde aquela oferecida pelos entusiastas aeronáuticos até àquelas dos entusiastas psíquicos."(Ibid.,p. 76)
Disse que, a história verdadeira desta grande confusão, não foi realmente contada, no entanto, ao contexto, pertenciam elementos misteriosos e pouco explicáveis.
Sir Owen, como já foi dito, recebia os jovens em sua casa para os fervorosos debates; e, no meio de um fatídico dia destes, insere-se a figura excêntrica e um pouco estranha do Sr. Amos Boon, uma espécie de "ex-missionário", que entorno de si, muitas histórias, verdadeiras ou não, circulavam deixando-o um sujeito ainda mais estranho.
Neste dia, Sir Owen intermediava com grande alegria, a discussão entre alguns dos jovens que girava entorno dos temas: ciência e poesia. Realmente despreocupado com sua própria vida no amanhã, já tinha decretado que deixava sua herança ao museu de história natural. E, além de arbitrar as discussões que eram sua grande alegria, também começou a se dedicar à pintura de paisagens. (Ibid., p.77-78)
Entre estes jovens que lá estavam a discutir certos assuntos, dos quais era uma árdua tarefa firmar um ponto em que estivessem de acordo, com algumas exceções, como Sir Owen, que viam algumas bases em comum, entorno das defesas; encontrava-se um jovem pintor, aspirante a poeta, o qual estava em uma ardente defesa de algumas noções poéticas de elevado nível e que resistia firmemente em oposição à "resistência sorridente de um doutor em ascensão" (Ibid., p. 78), de nome Wilkes, o qual tinha como seu hobby favorito, as ciências biológicas.
Em meio às acaloradas discussões acerca de temas como: o desenvolver de uma flor, onde se encontram as opiniões mais "científicas" e suas razões, que preferia abrir um tubarão ao meio, antes que fosse aberto; assim como as mais filosóficas, onde o poeta entra em uma análise mais metafísica com as razões que por sua vez, são bem mais analisadas; iniciam-se alguns desentendimentos entorno da figura do tubarão, inclusive religiosas.
Aqui, ao que me parece, é perceptível a noção que se tem acerca do filósofo, do poeta, em que Chesterton, através da figura de Gale , nos transpassa: a de que há uma certa prontidão para engajar-se em discussões eternas com qualquer que seja.
Em meio aos diversos discursos entorno da figura do tubarão, o Sr. Amos Boon, em vista da época de sua vasta experiência como missionário mundo afora, ao ver a silhueta de uma nuvem, afirma que em certo lugar, seria esta, adorada por certo povo, como a "sombra do tubarão", que é considerado e adorado como uma divindade. (Ibid., p.81)
As discussões sobre alguns temas continuam, em especial entre o poeta Gale e o cientista Wilkes. No meio de tudo, surge na janela uma imagem monstruosa e assustadora, a qual dá início ao mistério que se concretiza em seguida. Gale, vai guardando em si, detalhes de cada acontecimento, uma vez que em tudo observava o que se desenvolvia, e de vez em quando, se perdia em seus pensamentos e percepções, para encontrar respostas.
Em certo parágrafo, Chesterton (Ibid., p.86), ao descrever uma cena solitária de Gale, descreve com uma maestria, um tanto subjetiva, a filosofia da vida de um pensador, de um artista, de um poeta. Além disso, escreve com uma singeleza, detalhes dos ambientes que talvez, só quem vê além, entende que a paisagem diz muito ao pensador: "[...]e, quando chegou à beira do desfiladeiro, contemplou uma daquelas raras revelações em que o Sol parece ser não apenas o objeto mais luminoso de uma paisagem luminosa, mas, sim, ele próprio, o foco solitário de toda a luz; fonte única a jorrar rútila e incessante a luminosidade do mundo." Neste instante onde Chesterton vai descrevendo de forma sublime aquele momento único de contemplação e descrição; uma situação interrompe inclusive o sentimento que ía sendo gerado em meu ser como leitora: ele se utiliza de um recurso de troca de sentimentos ambientais (se é que posso chamar assim), mudando completamente o rumo do contemplar daquela paisagem: a cena de um crime.
Enquanto Simon (um dos jovens que também havia participado dos debates), o qual também chegou um pouco antes na cena do crime, quase que juntamente a Gale, sai para buscar a ajuda dos médicos conhecidos para verificar o corpo de Sir Owen; Gale observa os fatos e seus elementos objetivos, que inclusive são descritos de forma direta, prática e factual; para que lançando na subjetividade, fossem aclaradas as realidades e verdades do crime. Em contraposição, há o lançamento de hipóteses mais rasas dos demais personagens, que acusam injustamente ao que não teve a ver com a história.
Gale, inicia sua investigação pessoal, e toma caminhos que são diversos dos demais, que já acusaram o Sr. Boon, para chegar à conclusão que de fato, foi a real. Um final que é surpreendente e com um mistério que ao ser revelado, tornou-se inacreditável. Se alguém tiver curiosidade de saber o final, se chegou até aqui...então, é um dos poucos dispostos a tentar mergulhar na metafísica do viver. É hora então, de correr atrás desta obra magnífica, que é um tanto cômica, quanto trágica em seus contos.
Em síntese, penso que ao escrever esta obra, o genial Chesterton, pretendeu que grande parte dos leitores pudessem sair da superficialidade tanto da leitura, quanto da vida. Através destes contos confirma-se o aprendizado de que não se pode de fato viver de primeiras impressões, mas de sempre analisar melhor as situações e não agir por impulsos; se bem que, uma vez que se vive nesta fadada e cansada contemporaneidade, confirmo em mim, cada vez mais que a superficialidade tornou-se um meio ineficaz, muito mais que normal.
Quem por exemplo, chegou até o fim da leitura desta minha resenha, faz parte dos poucos que param para ler a informação com atenção até sua conclusão. Foi também a conclusão que tirei ao fazer postagens na página do meu Instagram, onde a grande maioria dos seguidores, curtem as fotos pela beleza vista a olho nú, na superficialidade, porém raros são os que comentam algo profundo, que vai além do que se vê, que conseguem penetrar a mensagem que realmente desejo ou gostaria de passar; até mesmo de abrir discussões sadias e necessárias.
O mundo secular roubou e deteriorou, da maioria das pessoas deste século, uma das mais belas riquezas aprendidas de nossos antepassados: a atenção plena nos fatos, nas leituras; a busca de entendimentos descritos nas entrelinhas; etc.
Chesterton escreveu para poucos, mesmo sem saber que seriam tão poucos, em vista do grande número da população mundial. Ando agora com qualidade, nas profundezas destas leituras; não mais leio as quantidades pressionadas pela superficialidade pregada mundo afora...
Indico a leitura para os que não querem ler superficialmente.
REFERÊNCIAS:
CHESTERTON, Gilbert Keith. O Poeta e os Lunáticos. Tradução: Raul Martins Lima. Rio de Janeiro: Sociedade Chesterton Brasil. 256p. Porto Alegre: Instituto Hugo de São Vítor, 2017.
